Saiba como cidade goiana saiu da exploração de amianto para o centro da disputa por terras raras
26/08/2026
(Foto: Reprodução) Minaçu em 1983
Reprodução/IBGE
Minaçu, no norte de Goiás, começou a se formar na década de 1960 e foi emancipada politicamente em 1976. A história do município está diretamente ligada à mineração. Inicialmente, a economia local se desenvolveu em torno da extração de amianto. Com as restrições ao mineral, a exploração de terras raras passou a representar uma nova perspectiva econômica para a região.
Atualmente, o município abriga a única mineradora fora da Ásia a produzir, em escala comercial, os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: a Mineração Serra Verde (SVPM).
🔎 As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para o funcionamento de diversos produtos modernos — de smartphones e televisores a câmeras digitais e LEDs. Apesar de usados em pequenas quantidades, eles são insubstituíveis.
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De acordo com informações da prefeitura, a formação do município está relacionada à implantação do parque industrial da Sama Minerações Associadas, na região da Serra de Cana Brava. O projeto contribuiu para o surgimento de um povoado que, posteriormente, receberia o nome de Minaçu, que tem origem tupi-guarani e significa "mina grande".
Em 1965, a Sama obteve autorização para realizar pesquisas na região. Dois anos depois, recebeu do Departamento Nacional de Produção Mineral o decreto de lavra e instalou uma usina-piloto. A partir disso, a atividade industrial se consolidou como a principal base da economia local.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente o municipio conta com cerca de 27 mil habitantes.
Ao g1, a geógrafa e moradora de Minaçu, Nelsylene Souza, relatou que a a parte positiva da mudança é a garantia de mercado e o aumento de emprego. No entanto, para quem vive na cidade, existem pontos negativos. "Com o aumento da população, os alúgeis subiram de forma exacerbada", disse.
Agora no g1
STF proíbe extração de amianto
Sama, indústria de amianto, em Minaçu
Divulgação/Câmara Municiapal de Minaçu
Por décadas, o amianto foi o principal motor econômico de Minaçu. Esse cenário começou a mudar com as decisões judiciais que restringiram a extração e o uso do mineral. Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou válidas cinco leis estaduais e uma municipal que restringiam ou proibiam a extração e o uso do amianto crisotila.
Segundo a Corte, as decisões levaram em consideração a natureza comprovadamente cancerígena do amianto, a impossibilidade de garantir seu uso de forma efetivamente segura e a existência de matérias-primas alternativas.
O julgamento foi concluído em fevereiro de 2023, quando o Plenário confirmou a inconstitucionalidade da norma federal que autorizava a extração, a industrialização, a comercialização e a distribuição da crisotila.
Mesmo após a decisão, em 2024, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) estabeleceu prazo de cinco anos para o encerramento das atividades de extração e beneficiamento do amianto na mina de Cana Brava.
A medida teve como objetivo permitir uma transição gradual da atividade e reduzir os impactos econômicos, sociais e ambientais na região produtora, além de estabelecer um planejamento para a recuperação da área após o fechamento da mina.
Em março de 2025, o STF retomou o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6200, que questiona a validade da lei goiana que autorizou a extração de amianto em Minaçu para exportação. Na ocasião, porém, os ministros não chegaram a uma decisão definitiva.
Em 10 de abril de 2026, o julgamento foi retomado. No entanto, o ministro Luiz Fux pediu vista dos autos - período que concede mais tempo para analisar o caso antes de votar -, e a decisão foi adiada novamente.
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Com o declínio da atividade ligada ao amianto, as terras raras ganharam espaço como uma nova possibilidade de desenvolvimento para Minaçu, a partir da Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM), responsável pelo projeto Pela Ema.
Ao g1, o prefeito Carlos Leréia (PSDB) destacou a importância do investimento para a economia local. Segundo o prefeito, o empreendimento já trouxe impactos positivos para o município e deve ampliar a arrecadação nos próximos anos. A expectativa é que a produção atinja o auge entre 2027 e 2028.
A trajetória da Serra Verde começou em 2010, quando a empresa apresentou à Agência Nacional de Mineração (ANM) pedidos de pesquisa que abrangiam 23 áreas entre Goiás e Tocantins. O objetivo era avaliar o potencial geológico da região.
Trabalhadores que atuam na extração de terras raras, em Minaçu
Divulgação/Serra Verde
Em 2017, a companhia obteve a licença prévia e, no ano seguinte, iniciou a execução do projeto Pela Ema. A expectativa é produzir pelo menos 5 mil toneladas de óxido de terras raras por ano. Após anos de estudos e implantação, a empresa recebeu a licença ambiental de operação em 2023 e iniciou a produção comercial em 2024.
A Serra Verde está instalada sobre um dos maiores depósitos de argila iônica de terras raras fora da Ásia. O tipo de depósito, segundo a empresa, apresenta vantagens competitivas e ambientais, além de estar em uma área de mineração consolidada e próxima a uma infraestrutura de energia renovável.
De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), a Serra Verde é a única mineradora fora da Ásia a produzir, em escala comercial, os quatro principais elementos magnéticos: neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb).
Esses elementos são utilizados na fabricação de ímãs de alto desempenho, empregados em tecnologias como veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de geração de energia e equipamentos militares.
O potencial brasileiro também chama atenção internacionalmente. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China.
Minaçu no centro da disputa global
Mineração Serra Verde, em Minaçu
Divulgação/Serra Verde
A relevância da produção de Minaçu aumentou com o interesse internacional pelas terras raras e pela busca de alternativas à cadeia de fornecimento concentrada na Ásia.
Em abril de 2026, a empresa americana USA Rare Earth anunciou um acordo para adquirir a Serra Verde em uma operação avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões. A proposta prevê a integração das atividades das duas companhias para formar uma cadeia de produção que vai da extração à fabricação de ímãs fora da Ásia.
Na ocaisão, Ricardo Grossi, presidente e diretor de operações da Serra Verde, informou ao g1 que a venda não irá promover mudanças imediatas na operação no Brasil e que a gestão local segue inalterada.
“A mina e a planta em Minaçu seguem operando normalmente, sob a liderança da equipe atual, com continuidade da estratégia já em curso. A operação permanece focada no ramp-up e na expansão previstos, e a gestão local segue inalterada. Ao mesmo tempo, o acordo fortalece a empresa ao dar acesso a tecnologia ao longo de toda a cadeia produtiva e maior integração global, sem alterar o dia a dia da operação”, explicou.
Segundo o prefeito Carlos Leréia, a população encara com otimismo o investimento em terras raras na região, tendo em vista que a perda da extração de amianto. “A Serra Verde preencheu esse espaço ofertando emprego e aumentando a movimentação econômica da cidade”, destacou ao g1, em abril de 2026.
Em agosto, a USA Rare Earth avançou na aquisição e anunciou ter garantido os recursos necessários para concluir a operação. O negócio, porém, ainda depende da aprovação dos acionistas em assembleia marcada para esta sexta-feira (28).
Para viabilizar a compra, a empresa informou ter assegurado US$ 1,55 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 7,7 bilhões. Desse montante, US$ 750 milhões, aproximadamente R$ 3,8 bilhões, vieram do Departamento de Guerra dos Estados Unidos. A operação também prevê uma linha de crédito de até US$ 500 milhões oferecida por um grande banco.
Com a produção de minerais estratégicos e o interesse de empresas e governos estrangeiros, Minaçu passou de um município cuja economia era fortemente dependente do amianto a um dos pontos de destaque na disputa global pelo fornecimento de terras raras.
Mineradora Serra Verde explora quatro elementos de terras raras em Minaçu.
Arte/g1
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